quinta-feira, 19 de julho de 2012

Monografia: A Igreja na pós modernidade.




                                             
RESUMO
O presente trabalho “Igreja na pós-modernidade” visa mostrar ao leitor os perigos que rondam as igrejas evangélicas do Brasil na atualidade. Mostra também as oportunidades que a pós-modernidade oferece para a pregação do evangelho. No decorrer da monografia muitas questões são levantadas, por exemplo: Como a Igreja pode ser relevante no mundo pós-moderno, sem cair numa espécie de secularismo? A Igreja tem alguma resposta ao homem pós-moderno? Quais são os desafios que a igreja tem de enfrentar nesse inicio de século? Como criar um ambiente acolhedor e interessante para os jovens sem perder a essência do evangelho? Qual deve ser a conduta do pastor diante dos novos desafios? Estas são perguntas que o autor procura responder no desenvolvimento do trabalho. Ele usa uma linguagem clara, simples e direta sem muitos rodeios, sempre procurando caminhar de forma objetiva. O autor não se reserva apenas a criticar a mentalidade do mundo pós-moderno, bem como a criticar a acomodação da igreja a esta nova maneira de pensar. Mas ele mostra soluções para a igreja ser triunfante. Certamente que esse estudo pode ser um bom guia para se formar um fórum de debate entre acadêmicos de teologia e professores, entre pastores e líderes e entre os membros da igreja de forma geral, pois o assunto abordado nesse trabalho ganha importância à medida que o tempo vai passando.



1. INTRODUÇÃO
Como a Igreja pode ser relevante no mundo pós-moderno sem cair numa espécie de secularismo? Qual deve se a postura adotada pela nova geração de pastores que estão se levantando? A Igreja tem alguma resposta ao homem pós-moderno? A resposta para estas perguntas não são simples de serem respondidas. Há muitas questões em jogo. São vários os desafios a serem enfrentados.
Os objetivos no desenvolvimento do tema é identificar quais são esses desafios, as crises geradas na cabeça dos cristãos, e as complexidades do homem pós-moderno. No desenvolvimento também se procura apontar as possíveis soluções para a igreja ser saudável em um mundo que está cada vez mais distante do criador.
O capítulo um trata das dificuldades que a igreja sempre enfrentou até chegar à era pós-moderna, a nova mentalidade que esta se formando principalmente na cabeça dos mais jovens e como somos afetados por esta nova maneira de pensar.
O capítulo dois aponta os desafios que os crentes têm de enfrentar para não se corromper frente às muitas dificuldades diante de si. Como pregar o evangelho para uma sociedade cada vez mais fechada? Também procura mostrar as várias crises que isto tem gerado no seio familiar, na sociedade e até mesmo dentro da igreja.
O terceiro e último capítulo faz alguns apontamentos de possíveis soluções para a igreja penetrar na vida cada vez mais privada do cidadão pós-moderno. Mostra igualmente a postura que os lideres das igrejas precisam ter diante dos vários modismos lançados e ditados pela mídia.
A razão de se fazer uma monografia sobre a igreja na pós-modernidade é por se tratar de um assunto de suma importância primeiramente para os pastores e líderes. O pastor evangélico sente na pele diariamente o desafio de pastorear na pós-modernidade. Sabe também de perto o que é lidar com o homem pós–moderno e suas complexidades. Em segundo lugar, a razão deste trabalho é porque ele se justifica por tratar-se de um tema da atualidade com grande relevância para os evangélicos de modo geral e até mesmo pessoas de outros grupos religiosos. O mundo vive um momento de grandes transformações e a igreja precisa estudá-lo para entendê-lo. Daí a importância desse estudo.



2. O CIDADÃO PÓS-MODERNO

A igreja do Senhor Jesus desde a sua fundação no século I até a atualidade vem enfrentando muitos desafios para sobreviver. Em determinados momentos, parecia que ela seria esmagada pelo adversário de tão grande que eram as dificuldades.
No século primeiro, por exemplo, os cristãos eram perseguidos, presos e muitos foram mortos. Tiago, um dos apóstolos da igreja, morreu ao fio da espada. Estevão, um dos sete diáconos, foi apedrejado sem misericórdia alguma. Pedro, Paulo e tantos outros cristãos foram mártires. Ser crente nunca foi uma tarefa muito fácil.
O próprio Jesus, nunca prometeu que as coisas seriam fáceis. “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33).
Ele disse também que seriamos perseguidos, injuriados por causa do seu nome. “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” (Mt 5.11).
É verdade que a igreja nunca teve sossego e ninguém deve se iludir pensando que é possível viver o céu aqui na terra. O descanso da igreja será apenas quando chegar ao céu. Aqui na terra a igreja esta ainda militando, batalhando, lutando. Mas ninguém precisa desanimar. O Senhor disse: “edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16. 18).
Talvez o primeiro século tenha sido a época de maior tribulação que a igreja já enfrentou. No entanto, uma coisa é certa e todos concordam, foi a melhor fase da igreja espiritualmente. As pessoas viviam a fé no Cristo ressurreto intensamente, mesmo sendo ameaçados pela prisão e até mesmo pela morte não retrocederam. É impressionante o nível de unção derramado sobre aquele povo. Eles com alegria buscavam o Senhor de todo coração, tinham comunhão uns com os outros e falavam e mostravam o amor de Deus por onde passava (At 2.46).
No século XX, já na era moderna, a civilização teve muitos progressos, principalmente no ocidente. Mas com o progresso, a tecnologia e a informatização, vieram também novos problemas. No campo religioso, a igreja teve de enfrentar o racionalismo, o materialismo e uma crescente onda de ateísmo. Isto obrigou a igreja a rever a sua apologética diante de novos obstáculos. Hoje, olhando para trás, vemos que aquelas dificuldades já não representam maiores perigos, podemos dizer seguramente que são desafios ultrapassados (GAMA FILHO, 2004, p. 34).
Porém foi no final do século XX que se iniciou uma nova era, como destaca Coelho Filho:
Em 1989 o mundo foi sacudido de maneira como poucas vezes o fora anteriormente. Caiu o muro de Berlim. Poucas pessoas entenderam que não era apenas um evento, mas uma nova era na história da humanidade (2002, p. 12).

Há algumas controvérsias quanto ao comentário citado acima. Alguns pensam que a pós-modernidade iniciou bem antes da queda do muro de Berlim. A questão maior é que todos os pensadores concordam no fato de que estamos na pós-modernidade.

2.1 A mentalidade do cidadão pós-moderno
Necessitamos saber agora como o mundo pensa e qual é a sua perspectiva de vida, para poder comunicar o evangelho de modo eficiente. A mensagem nunca muda, ela é a mesma. O apostolo Paulo disse que quem apresentar outro evangelho além do que ele apresentou seja maldito (Gl 1.8,9). Isso não significa que os métodos tenham que ser os mesmos de sempre. Método é algo flexivo, ele muda de acordo com o tempo, cultura e de acordo com as pessoas que a igreja queira alcançar. O próprio Jesus se contextualizou com a cultura das pessoas para se comunicar eficientemente. Quando ele falava com pescadores usava uma linguagem comum aos pescadores, usando figuras de linguagem relacionadas ao peixe, às redes e ao mar. Quando estava com agricultores falava em sementes, campos prontos para a ceifa, arado, etc. Também sabia falar no nível dos mestres e doutores, como no caso de Nicodemos que era considerado príncipe em Israel. Para cada tipo de pessoa Jesus sabia entrar e sair. Esta foi a razão do seu sucesso entre as pessoas, principalmente entre as mais pobres e humildes.
Jesus não é apenas o salvador que morreu na cruz por nossos pecados. Ele é também exemplo, modelo e padrão de vida a seguir e os pregadores da atualidade precisam seguir o exemplo de Jesus, estudando as pessoas para comunicar a mensagem da cruz com eficiência. Porque querendo aceitar ou não, vivemos em um mundo novo, um mundo pós-moderno e com ele o desafio de entender suas mudanças e como essas mudanças influenciam as pessoas no seu modo de pensar, sentir e agir. Cabe à igreja compreender estas mudanças para que ela possa assim contextualizar o seu modo de levar a mensagem de Deus.
Pós-modernidade não é apenas mais um modismo. É uma atitude cultural assumida por um grupo cada vez maior de pessoas, nas mais diversas áreas da vida humana. É uma mudança de hábitos que está a sepultar aquilo que conhecemos e praticamos. Um conjunto novo de valores na música, na literatura, na arte, nos filmes, nas novelas, no modo de vestir e no trato com as pessoas. Portanto, pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas (COELHO FILHO).
Já o pastor Alberto Pereira define a pós-modernidade da seguinte maneira:
Pós-modernidade é uma atitude intelectual que se expressa numa série de procedimentos culturais que recusa os ideais, crítica ao modernismo e aos princípios e valores que constituem o suporte da cultura ocidental moderna. É uma época que está emergindo, substituindo aquela em que estamos inseridos, moldando cada vez mais a nossa sociedade (2004, p. 1).
As mudanças que vem ocorrendo na sociedade é algo completamente novo. O mundo tem se afastado cada vez mais de Deus. O pecado tem se espalhado e multiplicado de maneira avassaladora. No entanto, para o apostolo Paulo não era nenhuma novidade. O texto profético de Paulo em (2Timóteo 3:1-5) revela o perfil dos homens dos últimos dias e este perfil se encaixa perfeitamente no homem pós-moderno, vejamos:
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.
É assombroso, mas temos de admitir que esse seja o tempo que se refere o texto sagrado escrito pelo apostolo Paulo, pois as pessoas da nossa época atual têm o mesmo perfil das pessoas citadas no texto bíblico acima. Isto faz com que a responsabilidade da nova geração de pregadores frente ao mundo aumente mais ainda. A igreja não pode perder tempo e nem recursos com coisas que não farão a diferença no Reino de Deus. É preciso investir o máximo de esforço no trabalho de evangelização, porque Jesus está voltando, os sinais estão se cumprindo e cada dia é precioso.
Júlio Paulo Tavares Zabatiero escreveu um artigo referindo-se à geração pós-moderna com o título: A vida não refletida, apenas sentida. Ele acredita apropriadamente que uma das características fundamentais da chamada pós-modernidade é o abandono da reflexão crítica racional. Reconhecendo a incapacidade de a razão resolver todos os problemas humanos, as pessoas que aderem ao novo modo de ser pós-moderno preferem levar a vida a partir dos Sentimentos e desejos e não da reflexão, ou, em linguagem bíblica, do discernimento. Sentir é mais importante do que saber, e, sentir-se bem é o que realmente importa para o indivíduo pós-moderno.

2.2. Características do pós-modernismo que mais nos afetam
Uma das características do pós-modernismo que mais nos afetam é o colapso das crenças. Não há um conjunto de valores. O que se faz é desmantelar as regras e as estruturas. Cada um acredita no que quer. Não importa se é certo ou errado. Se verdade ou mentira. Se moral ou imoral. É o que eu penso. Quem se importa? O que os outros têm a ver com isso? É como diz um refrão de uma música de funk, cada um no seu quadrado. Cada um faz a sua própria regra, tem a sua própria verdade, diz o que é o seu certo ou o errado e não aceita que ninguém dê opinião na sua vida. Afinal de contas, “se conselho fosse bom, ninguém daria, venderia”.
Outra característica é a busca de novidades exóticas. Normalmente as novidades são contra o estabelecido. Veja como a mídia cria mitos, cria conceitos, projeta sempre o que é contra o estabelecido. Esta atitude surge, por causa das duas características seguintes: estilo de vida individualista e falta de cosmovisão.
Um estilo de vida individualista, hedonista (doutrina filosófica que faz do prazer objeto de vida) e narcisista (pessoa que pratica culto da sua própria pessoa). Os jovens de hoje são individualistas, embora vivendo em "tribos". Não se espera deles patriotismo. São hedonistas, vivendo em função do prazer, não necessariamente sexual, mas a busca do que lhes é agradável. São narcisistas, no sentido de olharem mais para si que para o mundo. Isto não é uma prerrogativa exclusiva deles, mas de toda a cultura pós-moderna. O social e o outro são irrelevantes. O que vale é o próprio indivíduo.
Outra característica do pós-modernismo que mais nos afeta é a falta de uma cosmovisão. O pós-moderno não tem uma cosmovisão nem mesmo posturas coerentes. É a pessoa que nega a existência de Deus, mas que crê em energia vinda de um cristal. Que nega a historicidade de Jesus, mas acredita em duendes. "Nenhuma certeza pode ser imposta a ninguém", diz o pós-moderno (COELHO FILHO, 2002, p. 12).
O quadro abaixo dá uma visão geral das características do homem pós-moderno.
Verdade Relativa e não absoluta
Instituições Falharam em promover um mundo melhor
Autoridade Sinônimo de opressão - crise de liderança
Valores Não há padrão de certo e errado - troca do ético pelo estético
Viver Individualista, hedonista, narcisista e secularizado
Religião Menos dogmática e mais experimental e pragmática
Ideologia Plural – todas têm suas verdades
Passatempo Buscar o novo
Bênção É um produto conquistado
Pecado Não existe - não se sinta culpado liberte-se da culpa
Existência Preciso pertencer a algum grupo - as tribos urbanas
Princípios Devem ser politicamente corretos
Realidade È o que percebemos e o que sentimos
Progresso De maneira sustentável - forte apelo ecológico
Espiritualidade Mística e esotérica
In: PEREIRA, 2009
A descrença nas instituições e nas figuras de autoridade é mais uma característica do pó-modernismo. As instituições sociais falharam em seu propósito de prover um mundo melhor. Os governos, a família, a escola, todos eles falharam. O jovem não crê na declaração romântica do educador de que está formando mente e educando para o futuro. Não vê o professor encarar a profissão como uma vocação, mas como um ganha-pão somente. Não vê a escola como um lugar agradável nem crê no seu discurso de que estudando a pessoa pode ter oportunidades (AMORESE, 1998; p. 89).
A descrença nas instituições e nas figuras de autoridade acarretou no desenvolvimento trágico de uma característica que tem trazido muito sofrimento para os jovens da atualidade: é o seu espírito de rebeldia. John Stott (2003, p. 79), escritor inglês, em seu livro Eu creio na pregação, nos relata:
Raras vezes, ou talvez nunca, na sua longa história, o mundo tem testemunhado semelhante revolta autoconsciente contra a autoridade. Não é que o fenômeno do protesto e da rebelião seja novidade. Rm 8.7., mas o que parece ser novidade hoje é tanto a escala mundial dessa revolta, quanto os argumentos filosóficos com os quais essa é reforçada. Não pode haver dúvida de que o século xx foi envolvido numa revolução global, condensadas nas duas guerras mundiais. A velha ordem esta cedendo à nova ordem mundial. Todas as autoridades aceitas (família, escola, universidade, estado, igreja, Bíblia, papa e Deus) estão sendo questionadas.
Certamente o que Sttot disse acima é verdadeiro e constitui um dos maiores desafios que a igreja precisa vencer. Além de tudo, se quisermos alcançar o homem pós-moderno precisaremos entendê-lo. Com a decepção da modernidade e a morte da razão o homem saiu em busca de novos paradigmas buscando significado para a sua vida.
No próximo capítulo veremos melhor as dificuldades e os desafios que a igreja precisa enfrentar para alcançar o homem pós-moderno com o evangelho de salvação do Senhor Jesus.



3. DESAFIOS DA IGREJA NA PÓS-MODERNIDADE
A pregação do evangelho nunca foi tarefa fácil em nenhuma época, e, cada geração de discípulos é responsável por conquistar sua própria geração. O tempo passa e as pessoas mudam. Cada geração deve analisar e perceber quais são as barreiras que estão impedindo o evangelho de avançar e alcançar as pessoas.
No meio evangélico há três tipos básicos de igrejas: primeiro a histórica, entre elas batistas, presbiterianas, metodista, congregacionais e outras. O segundo grupo é formado pelos pentecostais que são as Assembléias de Deus, Deus é Amor, Brasil para Cristo, Quadrangular, etc. Já o terceiro grupo é o mais recente, chamado de neopentecostal, suas igrejas principais são a Universal do reino de Deus, a Internacional da Graça e a Igreja Mundial do Poder de Deus.
Os históricos e os pentecostais se divergem em muitos assuntos, mas são unânimes para criticar os neopentecostais. Alguns crentes das igrejas chamadas históricas ou conhecidas mais popularmente de tradicionais chegam a dizer que as igrejas neopentecostais não são evangélicas, mas seitas heréticas.
Alguém pode argumentar que de fato existem algumas coisas em uma ou outra igreja neopentecostal que são estranhas. Mas ninguém pode negar que justamente os neopentecostais estão “acertando na mosca” quando a questão é alcançar as massas. É bem verdade que são grupos que fazem bastante uso do pragmatismo, ou seja, pregam o que as pessoas querem ouvir, mas seus objetivos são alcançados e os templos estão quase sempre lotados.
Outros pontos positivos dos neopentecostais é o seu sistema de governo centralizado. Isto faz com que os esforços e os recursos da igreja sejam concentrados nos objetivos traçados por seus líderes. Isto facilita muito realizar investimentos em propagandas, quase sempre usando a figura do líder da igreja. O uso maciço da mídia faz com que o pastor da igreja possa entrar na casa do indivíduo, quebrando uma barreira que talvez de outra maneira não fosse possível quebrar. Nessa questão os neopentecostais estão de parabéns, ninguém pode negar sua eficiência no uso da mídia.

3.1. Como pregar o evangelho numa sociedade pós-moderna?
Um dos desafios da igreja hoje é penetrar na vida das pessoas. Porque o cidadão moderno não consegue e não deseja abrir mão de seu conforto privado. Não deseja abrir mão de sua forma de pensar e de agir. Isso seria abrir mão de sua privacidade. O individualismo faz com que hoje em dia não haja sansões para as leis morais. Já descriminalizaram o adultério, querem descriminalizar o aborto, legalizar o casamento homossexual. Palavrão já não choca ninguém; os incomodados que se mudem. Por quê? Porque valores morais são coisas privadas e ninguém tem nada que ver com isso, “contanto que eu fique dentro do meu quadrado”.
Os dois maiores desafios da modernidade, portanto, são o individualismo e a desmoralização de nossa sociedade. Sem falar do relativismo, a visão de que não há ponto de referência fixo pelo qual a moralidade possa ser julgada. Todas as culturas e, em última instância, todos os estilos de vida, têm suas particularidades e em grande parte, muito além de qualquer avaliação. (LUTZER, 2007, p. 36). Essa é uma tendência que vem crescendo e tomando forma na sociedade nesse início do século XXI.
Já os métodos utilizados para evangelizar nos anos 70 e 80 não dão muitos resultados hoje em dia. Na verdade precisamos rever completamente nossos métodos e nos adequar para sermos mais eficientes na evangelização. A opinião de Isaltino Coelho Filho (2002, p. 11) é bem válida nessa questão:
Não podemos esquecer que temos valores eternos como cristãos que somos. Há valores temporários, locais e mutáveis. Há valores inegociáveis. O pregador e o pastor necessitam ter uma cosmovisão cristã completa, saber de sua fé e de seus valores e vivê-los. Muitos pastores não têm uma visão global do mundo, e, o que é pior, muitos não tem sequer uma visão global de sua fé, sabendo encaixar o mundo nela, analisando o mundo por ela. Sua fé é de pequenos credos, sem uma visão ampla do evangelho. Isto é trágico para um pastor. Sem uma visão global do evangelho fica difícil analisar o mundo.
Mas infelizmente, é esta a realidade de boa parte de nossos pastores. Há uma crise nos púlpitos evangélicos. Em alguns pastores falta caráter, base sólida familiar, senso crítico, conhecimento bíblico/teológico e conhecimento filosófico. Por outro lado, alguns que têm estas coisas não têm unção, poder, amor pelas pessoas, piedade, vida de oração.
Na opinião do Bispo Robinson Cavalcanti o grande desafio teológico e pastoral da pós-modernidade é que passamos a viver uma era de incertezas. As pessoas perderam suas convicções. Não há mais paradigma seguro do que é certo ou errado. Infelizmente cada um tem a sua própria verdade. Tudo isto leva as pessoas a viverem em meio a muitas incertezas. É por esta razão que é necessário levantar a voz profética na igreja.
Deus levantou João Batista como profeta em Israel depois de aproximadamente quatrocentos anos de silêncio profético. Foi uma época muito difícil em Israel. Roma tinha o domínio e o povo vivia oprimido pelos romanos aguardando a vinda do Messias libertador. Surgiu então uma voz que ecoou do deserto. João batista, o profeta, levanta a sua voz profética com uma dura mensagem de arrependimento. “Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados” (Mc 1.4).
Segundo José Luiz Martins Carvalho, a influência dos perigos e desafios da pós-modernidade pode ser vislumbrada facilmente na vida da Igreja. Muitas igrejas evangélicas, consciente ou inconscientemente, têm até mesmo adotado modelos eclesiásticos e pastorais que carregam em si a marca clara do mundo pós-moderno.

3.2. Igreja moderna: o desafio das crises
A primeira crise que vamos considerar é a crise moral. Uma das causas do enfraquecimento dos valores morais tradicionais é o processo de fragmentação da consciência do homem moderno. Não há um conjunto de valores em que ele se baseie (MACARTHUR, 1998, p. 221).
A crise moral de nosso tempo se manifesta de forma ambígua. Por um lado, aqueles valores aprendidos dos nossos avós ainda estão lá, porque nunca foi negados explicitamente e certamente nunca o serão; por outro lado, eles não têm mais forças sobre as pessoas. Por exemplo, uma jovem de nosso tempo é capaz de verbalizar em um programa de auditório que abomina uma “cantada” grosseira ou a abordagem indecorosa do chefe. No entanto, ela se veste e se porta de tal forma que indica por todas as hermenêuticas da linguagem não verbal que deseja ser abordada e conquistada (LUTZER, 2007, p. 37).
Ainda se requer das pessoas, na vida prática, no dia a dia, por exemplo, que sejam verdadeiras, que digam a verdade. Ninguém gosta de ser enganado nem que lhe mintam. Mas repare que uma pessoa verdadeira, isto é, que sempre diz a verdade, que nunca mente, não é incentivada, encorajada, elogiada. Não há um consenso prático sobre esse valor. (AMORESE, 1998, p. 119)
A segunda crise é a crise intelectual. No que diz respeito à igreja, a crise intelectual resulta na desvalorização de se formar pessoas que pensam. Não há interesse nas pessoas pelo estudo bíblico. Elas não querem pensar, querem sentir. Não querem buscar, porque buscar dá trabalho, querem receber. Se me sinto bem numa igreja fico nela. Se me sinto bem com a pregação, esse “pregador é de Deus”, se não senti nada, então Deus não esta aqui.
O homem pós-moderno tem preguiça de pensar. É por essa razão que estamos perdendo o senso crítico. Aceitamos ideologias, filosofias e novos conceitos sem fazer a menor análise. Sem ao menos parar e pensar. É por essa razão que os cursos nas áreas de ciências humanas nas faculdades estão sendo cada vez menos procurados. É por causa disso que os alunos das escolas públicas e privadas preferem apenas “passar um olho” numa apostila bem condensada ao estudar um livro. É mais fácil decorar o questionário do que realmente aprender.
A terceira crise é a Crise de caráter. Onde há crise moral certamente também haverá uma crise de caráter. A moralidade humana é a base de um bom caráter. Talvez este seja o maior desafio da igreja na pós-modernidade: levar as pessoas a serem transformadas pelo poder de Deus no seu caráter. A igreja é um instrumento de Deus para transformar pessoas egoístas, avarentas, amantes de si mesma em autênticos adoradores do Deus vivo. Quanto a este assunto há ainda um problema que criamos. Rubens Amorese (ano 1998, p. 125) relata muito bem:
A conseqüência imediata para a igreja se dá via cavalo de tróia. Trazemos o inimigo para dentro de casa. Para adaptar nossa mensagem, nosso discurso interno, nossa liturgia, nossa celebração, enfim, a essa nova realidade, criamos um cristo que salva mas não transforma; que tem poder, mas não convence. Que convence, mas não converte. Anunciamos um evangelho que propõe, mas não confronta (politicamente correto).
Esta é a infeliz realidade da maioria das igrejas brasileiras. Isto vem acontecendo cada vez com maior freqüência porque a igreja vem perdendo a unção. Raramente se ouve dos púlpitos mensagens condenando o pecado, falando de arrependimento e da necessidade de confissão. Falta como já foi dito anteriormente a “voz profética”. As mensagens que descem dos púlpitos já não estão mais tão ungidas, porque os discursos estão carregados de teor psicológicos em vez de serem ungidas pelo Espírito Santo.
Podemos considerar também como aspectos da crise, a Crise da graça e cultura de mercado. A cultura da graça nos diz que recebemos o que não merecíamos. Por isso, damos graça. Nosso coração se enche de gratidão por havermos recebido algo que absolutamente jamais poderíamos exigir nem reivindicar. A cultura do mercado diz que ainda não recebemos tudo o que merecíamos. Devemos exigir sempre mais pelo que pagamos. Afinal, você merece.
A propaganda vem e lhe ensina que o melhor motivo para comprar aquele produto caro é você mesmo. Afinal, se você não acha que merece o melhor, quem lhe dará o devido valor? Além disso, como conseqüência, você passa a ser avaliado pelo que tem. Na cultura de mercado, ninguém presta atenção em alguém com o carrinho vazio no supermercado. Mas se o seu carrinho estiver cheio de produtos caros, terá seu momento de glória, mesmo que não passe pelo caixa e saia de fininho, quando ninguém estiver vendo. Há pessoas que moram mal, comem mal em casa e possuem carros luxuosos porque querem a admiração e o aplauso das pessoas, mesmo que para alcançar tal objetivo contraiam muitas dívidas.
As pessoas não te valorizam pelo que você é, mas por aquilo que você tem. Isto significa que os menos favorecidos serão cada vez menos valorizados e cada vez mais esquecidos.
A igreja e os seculares meios de comunicação de massa não têm um relacionamento muito amistoso. O item ‘ibope’ é um fator problematizado. A lógica do mercado sobre a arte, a moral ou a religião produz o “efeito ibope”. Só existem, só tem validade, só são dignas de consideração, se “dão ibope”, ou seja, se há quem as consuma. Por exemplo: uma música bonita para um adolescente passa a ser aquela que todo mundo está cantando. Não importa se fala de suicídio, se vai mandar todo mundo para o inferno, se manda “segurar o tcham” ou se vai “testar o sexo de uma garota com ar de professor”. A atitude mais correta, mais nobre, diante de uma dada situação não é mais aquela recebida da herança cultural, mas o que todo mundo faz (ou a que todo mundo diz que faz; ou melhor, ainda, que a mídia diz que todo mundo faz).
É impressionante como a mídia manipula a opinião das pessoas, fazendo assim surgir em cena uma nova personagem, uma entidade moderna, chamada “opinião pública”. Personagem criada pela mídia e controlada por ela, a opinião pública, na maioria das vezes não tem opinião nem é pública. Mas, por meio de algumas entrevistas, a mídia é capaz de criar uma impressão de consenso sobre o que desejar. Daí, ter-se tornado no que se convencionou chamar de “quarto poder do Estado”. Esse poder tenta, hoje em dia, assumir o controle sobre os demais, elegendo pessoas nos outros três poderes, por meio da manipulação da opinião pública (AMORESE, 1998, p. 162; 164).
Individualmente, o cristão deve desenvolver sua capacidade crítica em relação aos meios de comunicação. Deve se perguntar se poderia ler esta revista, ver este filme, assistir a esta novela em companhia de Jesus? Deve se perguntar se o Espírito Santo o acompanha em sua programação de lazer, qualquer que seja.
A ausência desse senso crítico é o que enfraquece o cristão diante das tentações. Ele precisa fazer um esforço consciente para viver uma vida agradável a Deus.
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1,2).
A Bíblia diz que o reino de Deus é tomado à força (Lc 16.16). Portanto, para não ser engolido pelo invertido sistema de valores do mundo é necessário um grande esforço mental e emocional no sentido de nunca aceitar qualquer coisa passivamente. Antes de qualquer decisão é preciso pensar com cuidado, buscando enxergar com clareza. A melhor maneira de fazer isso é analisar tudo sempre à luz da Palavra de Deus. A Palavra é luz que ilumina o nosso caminho nas trevas (Sl 119. 115). O cristão que quer viver para o agrado de Deus precisa guardar essa palavra em seu coração, ter a Bíblia como seu manual de vida e prática, ou ele será engolido pelo sistema que conspira contra Deus e seu povo. (CAIRNS, 1995, pag. 185)


4. SOLUÇÕES PARA A IGREJA NA PÓS-MODERNIDADE
Vimos nos capítulos anteriores que o homem pós-moderno e suas vertentes representam um grande desafio para a igreja contemporânea. São muitas as crises alistadas. Às vezes somos tentados a imaginar que essas coisas todas nada têm que ver com a igreja. Mas o nosso alerta é exatamente no sentido contrário. Aos poucos, vamos incorporando essa ou aquela atitude sem perceber. Tornamo-nos cínicos, para podermos sobreviver; consentimos, por falta de diálogo ou medo de magoar nossos jovens e perder importante fatia no mercado evangélico (AMORESE, 1998, p. 170).
A intenção desse capítulo não é oferecer soluções finalizadas para a igreja ser uma maravilha. A proposta é apresentar algumas sugestões para melhorar a situação da igreja brasileira. São idéias para se pensar um pouco, refletir, meditar. Sabemos, no entanto, que não podemos ser apenas seres pensantes e contemplativos, assim, é preciso ação e esforço, muito esforço, no sentido de procurar viver no centro da vontade de Deus (LUTZER, 2007, p. 58).
Em relação aos nossos cultos dominicais, o problema é que ninguém conversa com ninguém a respeito de si próprio, a não ser para contar vantagens. Há igrejas que seus cultos mais parecem desfiles de moda. E o que mais se fala quando chegam a casa é quem estava mais bem vestido, em vez de falarem como foi abençoado o culto.
Uma boa sugestão para resolver esse problema é a realização de reuniões nos lares. Não para estudos bíblicos, nos quais uma pessoa fica encarregada de expor as Escrituras enquanto os demais tentam aprender a Palavra. Nem tão pouco para conversa fiada, sem sentido. Mas para contar histórias, trocar experiências, valores que valham a pena socializar. Mas não se iluda achando que formar grupos pequenos na igreja é fácil. Geralmente, as pessoas são aversas a este tipo de iniciativa. A maioria não quer se expuser porque é muito melhor e mais cômodo para elas participar de um grupo grande, onde possa ficar anônimas, sem ninguém perceber sua presença.
As células familiares trabalham na contramão do individualismo da pós-modernidade. Seu estilo e natureza trás o convívio social para dentro da igreja; que esta cada vez mais difícil. O pastor da igreja deve pregar valores que reforcem essa visão de grupos pequenos. Deve orar com instância resistindo os espíritos contrários e deve se posicionar de maneira firme diante da congregação (STTOT, 2003, p. 141).
Normalmente as pessoas querem optar pela sua “preferência” religiosa sem ser importunadas por opiniões contrárias. Os critérios que orientam essas escolhas são todos íntimos e subjetivos. Semelhantemente, também não tentarão impor sua nova opção de fé a ninguém.
Na Igreja, o que antes era convicção, hoje é opção. Os mandamentos divinos passaram a ser sugestões divinas. A igreja é orientada por aquilo que dá certo e não por aquilo que é certo. Isto é algo extremamente perigoso para a integridade da igreja, e, os líderes e os membros precisam estar atentos porque o mais importante para a igreja é a sua fidelidade a Deus. Sucesso e crescimento são os resultados que a igreja alcança por viver saudavelmente. A Bíblia diz que a igreja quando começou no primeiro século era fiel ao Senhor. Os discípulos viviam em oração e ardente comunhão uns com os outros “e o senhor acrescentava os que iam sendo salvos” (At 2.47).
Nossa tarefa apologética para esta era pós-moderna é restaurar a confiança na verdade. A Bíblia continua sendo a Palavra de Deus. A Bíblia é um documento inspirado da revelação divina, quer este ou aquele indivíduo receba ou não o seu testemunho. Devemos, pois, respeito e obediência à Bíblia, não por ser letra fixa e estática, mas porque, sob a orientação do Espírito Santo, essa letra é a Palavra viva do Deus vivo dirigida não só ao crente individual, mas à Igreja em geral.
Infelizmente, vivemos um paradoxo: por um lado, nunca se produziu tantos exemplares de Bíblias como temos na atualidade. É a Bíblia da mulher, da família, do ministro, do jovem, do adorador e até de quem não tem tempo para ler a Bíblia (Bíblia resumida). Por outro lado, as pessoas lêem pouquíssimo o Livro Sagrado. Há inclusive uma grande parcela de pastores que só lêem a Bíblia no dia em que vão pregar. Se aqueles que estão liderando as ovelhas têm esse nível de compromisso com a leitura da Bíblia, então o que podemos esperar do povo comum?
Mas isso ainda não é o pior. Cresce no meio evangélico algumas idéias inadequadas relacionadas à Bíblia. São teorias da teologia liberal que devastou completamente as igrejas da maior parte da Europa e deixou marcas terríveis nos Estados Unidos.
Esses mestres negam a inspiração divina das Escrituras, querem negar a divindade de Cristo, a sua ressurreição corpórea e alegorizar a volta de Jesus.
A igreja de Jesus jamais pode abrir mão da verdade absoluta, da verdade bíblica. Mesmo que seja criticada, ridicularizada, zombada, injuriada e maltratada. Verdade para os seguidores de Cristo não é uma questão relativa, é uma questão de vida e morte. O seguidor verdadeiro de Jesus Cristo não negocia a sua fé. Ele esta firmado em Cristo, tem certeza da sua salvação, sabe que os seus pecados foram perdoados. Esta é a verdade que ele não abre mão.
A palavra doutrina é muito confundida nos círculos evangélicos. Principalmente no meio pentecostal. Alguns pensam que doutrina é o mesmo que usos e costumes, ou uma série de preceitos éticos regionais. Na verdade, doutrina é muito mais que isso. São ensinamentos teológicos fundamentados na Bíblia, que não estão condicionados ao tempo, cultura ou espaço geográfico.
O pastor Hernandes Dias Lopes, da primeira igreja presbiteriana de Vitória (2005, p. 20.) fez um comentário interessante a esse respeito:
No mundo pós-moderno, não faz sentido discutir doutrina e teologia. Onde não existe verdade absoluta, não há espaço para a discussão de temas religiosos. Esse assunto deve ser empurrado para a lateral da vida e para fora da agenda da igreja. As pessoas não se interessam por doutrina, porque pensam que doutrina divide. Elas preferem temas mais amenos. Mas não há prática cristã sem doutrina. Antes de Paulo exortar a igreja, ele ensinava sobre doutrina. A doutrina é a base da moral. A teologia é a mãe da ética. O colapso moral presente na sociedade e na igreja é a ausência da doutrina bíblica.
Os apóstolos diferentemente do que acontece hoje evangelizavam com temas doutrinários. Pedro por exemplo, em seu primeiro sermão, faz uma exposição concisa da doutrina da ressurreição. Como resultado, mais de três mil pessoas se converteram a Cristo.
A igreja não pode perder a visão do Reino de Deus. Não pode perder a sua identidade cristã. Ela tem que ter uma visão bem clara e definida de quem ela é. Efésios (5.27) nos mostra este quadro: “Para apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível”.
Todos nós gostaríamos de saber onde esta essa igreja. Parece que Jesus tem uma igreja dentro da igreja! Mas, como pode ser isto? É verdade, porque quando nos referimos à igreja de Jesus, a noiva de Cristo, estamos nos referindo ao corpo místico de Cristo, e não a uma instituição chamada de igreja. (CAIRNS, 1995, pag. 322)
A pós-modernidade apresenta à Igreja problemas e oportunidades imensas. Para superar os problemas e aproveitar as oportunidades de crescimento, precisamos do discernimento do Espírito Santo e da compaixão de Jesus. Por isso, o principal desafio da missão da Igreja na pós-modernidade é a qualificação da Igreja como povo de pessoas cheias do Espírito Santo.
Ser cheio do Espírito é uma questão de sobrevivência praticamente. Ou a igreja é composta de pessoas cheias da unção do Espírito para avançar contra o império das trevas, ou ela será engolida. E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder (Lc 24.49).
O revestimento de poder é algo imprescindível sobre os discípulos de Jesus para fazer a obra de Deus. Se o próprio Cristo realizou o seu ministério na unção do Espírito, quanto mais nós. Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele (At 10.38).
A missão da igreja é testemunhar o que Cristo fez e ainda faz por onde ela passar e em qualquer lugar que estiver, conforme At 1.8. Nesta missão, há a promessa de que a presença de Jesus estaria com eles, veja Mateus 28.18-20:
E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.
A igreja como um organismo vivo crescerá naturalmente, desde que esteja saudável. Esse é o tema mais discutido atualmente: o crescimento numérico da igreja. Nunca se produziu tantos livros, nunca se realizou tantos seminários e tantos congressos como nos últimos vinte anos sobre o crescimento da igreja. São temas que tratam de igrejas em células, igrejas com propósitos, rede ministerial, etc.
De acordo com Rick Warren, uma das maiores autoridades na atualidade em crescimento da igreja, em seu excelente livro Igreja com propósitos (1997, p. 112), uma das maiores barreiras para o crescimento da igreja é a cegueira cultural. E a melhor maneira de conhecer a cultura, o pensamento e o estilo de vida das pessoas é conversando com elas.
Não há como haver interação entre as pessoas se elas não conviverem juntas. A igreja precisa sair das quatro paredes e ir ao encontro das pessoas. É preciso romper a barreira da indiferença, do comodismo, da apatia e da frieza espiritual. O povo de Deus precisa despertar do sono e avançar na conquista das nações com a pregação do evangelho de salvação de Jesus Cristo.
Nossas comunidades (igrejas locais), não podem ficar apenas na mesmice. Devem ser comunidades calorosas, sadias e acolhedoras. As pessoas devem ser ouvidas e levadas a sério. Deve haver seriedade no trato, disciplina com amor e respeito. O jovem continua necessitando de balizas, de um norte. Busca um guia, um líder confiável. O que leva os jovens a se envolverem com seitas exóticas e com alguns líderes que promovem a autolatria? É que esses líderes os aceitam e lhes servem de referencial. Nossas igrejas podem oferecer este ambiente ao jovem? Ela é agradável ou é um fardo? O pastor pode ser um referencial, no sentido de ser uma pessoa que sabe o que quer e para onde vai? O estilo de vida do pastor é inspirador? Ou ele é um desanimado e desencorajado peregrino?
Toda mudança precisa passar primeiramente pela liderança. A conscientização precisa partir daqueles que estão à frente das ovelhas do Senhor. A Bíblia diz que a quem mais é dado, mais lhe será cobrado (Lc 12.48). Há pessoas que querem ser pastor porque acham bonito, mas desconhecem a imensa responsabilidade que tem diante de Deus. Um dia, todos teremos que prestar contas a Deus no dia do juízo.
O ministro cristão para desempenhar o seu ministério com eficiência precisa ter várias qualidades. Coerência é uma delas, apesar de existir uma crise de coerência lá fora. Porém, no ministério ela é fundamental. (COELHO FILHO, 2002, p. 12) nos assegura que os jovens de hoje não querem simplesmente mestres, querem testemunhas. Querem pessoas que creiam nos valores que propagam. O pastor digno do nome é alguém que busca ser modelo. Há pastores que não amam as pessoas, mas o seu ministério, o seu trabalho, sua filosofia ministerial e, algumas vezes, o reino de Deus. Isto não é errado, mas se não ama gente terá grandes dificuldades em seu trabalho. Outros têm o ministério apenas como ganha-pão. Tratam as pessoas como se fossem coisas e dão personalidade às idéias e conceitos. "Vem para o meio", disse Jesus ao homem da mão mirrada. O educador e o líder cristão que se prezam colocam a pessoa no centro. Amamos nossos templos, nossos prédios, nossas instituições. Mas e as ovelhas? É apenas um detalhe aborrecedor e irritante? Há líderes apaixonados por si e com comichão nos ouvidos e também na língua. Mas não ligam para as pessoas. Elas apenas fazem parte do seu trabalho, do seu ministério. Isto é grave. As pessoas sabem quando são usadas e manipuladas e sabem quando são aceitas e amadas, mesmo que discordemos delas.
Precisamos amar o que fazemos. Uma das questões mais atacadas pela pós-modernidade é exatamente a hipocrisia dos líderes. As pessoas possuem valor enquanto ser humano e lidar com pessoas pressupõem amá-las. Pastorear pressupõe amar o trabalho que se faz.
As perguntas que se seguem elaboradas pelo professor Isaltino Coelho Filho tem o objetivo de levar a liderança das igrejas a refletir o seu papel. (COELHO FILHO, 2002, p. 14) Tenho a preocupação de cuidar, de marcar a vida das pessoas, de deixar lembranças positivas, ou vejo meu ministério apenas pelo aspecto de cumprir uma missão?
O ministério pastoral antes de qualquer coisa implica no cuidado com as ovelhas. Jesus quando se encontrou com Pedro após a sua ressurreição perguntou-lhe: você me ama? Então apascenta as minhas ovelhas (Jo 21:16, 17). O líder é um influenciador e como tal deve se conscientizar da oportunidade e responsabilidade que tem de deixar marcas positivas na vida das pessoas que estão sob o seu cuidado.
Considero-me, como pastor, um produto acabado ou procuro entender meu tempo? De que forma o faço? Que evidência tenho para provar isso?
Pastor nenhum na face da terra é um produto acabado. O dia que o pastor se considerar um produto acabado ele estará de fato acabado. Sócrates, o grande filósofo, disse que sábio é aquele que sempre procura mais sabedoria. O rei Salomão disse algo bem oportuno sobre isso. “Não sejas sábio a teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal” (Pv 3.7). O pastor na realidade é uma ovelha como as outras, um ser humano com as mesmas carências, fraquezas e necessidades. Isto significa que ele também vive um processo de crescimento que não pode parar (LUTZER, 2007, p. 81).
Que características do pós-modernismo estou a ver em minhas ovelhas, mais comumente? E na minha conduta?
Essa é uma questão que vai exigir do pastor observação. O pastor inteligente ficará atento nas oscilações de comportamento do seu rebanho. E mais importante ainda, deverá ficar atento na própria conduta. É sempre essencial para o líder cristão fazer constantes comparações entre o perfil de um homem de Deus apresentado nas Escrituras e o seu comportamento no cotidiano.
Estou na pós-modernidade, com o peso da velha autoridade da modernidade? Como reajo a esta constatação e como me situo para responder aos desafios pós-modernos?
Esta é mais uma boa pergunta que exige reflexão. Na era moderna, em meados dos anos 70 e inicio dos anos 80 era bem mais fácil exercer a liderança. O líder se apoiava sobre o seu poder e raramente alguém ousava desafiar e questionar a sua autoridade. As coisas estão bem diferentes na atualidade. Agora, o líder que insiste em um modelo de liderança baseado na força dificilmente sobreviverá por muito tempo. As pessoas da pós-modernidade querem um líder que as conquistem. Somente depois elas reconhecerão e se submeterão à sua autoridade (WARREN, 1997, p. 253).
O que está no centro de minha visão pastoral?
A visão pastoral deve ser absolutamente acima de qualquer interesse terreno. O pastor tem que ter uma visão do Reino de Deus. Ele precisa encarar a igreja local da qual pastoreia como uma agência do Reino de Deus. Isto significa que tudo que o pastor leva a igreja a realizar deve estar relacionado com os interesses do Reino. Tendo os interesses do reino de Deus norteando a sua visão, o pastor pode então desenvolver o seu ministério para a glória de Deus, sabendo que tudo quanto ele fizer será bem sucedido aos olhos do seu Senhor.
Qual a minha visão de Igreja e qual o uso do púlpito que faço?
Quanto à igreja, a primeira coisa que jamais poderá esquecer é que ela não é sua propriedade, como um negócio particular. Não é meramente o seu ganha pão, embora tenha direito a ser sustentado pelos dízimos e ofertas dos fiéis. Não é também o seu império, onde ele possa mandar e desmandar como bem entender. O pastor precisa saber que a igreja é de Deus; uma comunidade de pessoas salvas pelo precioso sangue de Jesus, que deve ser treinada e equipada para alcançar o mundo com a mensagem da cruz. Em relação ao púlpito, o pastor deve fazer uso dele com temor, tremor e reverência. Púlpito não é lugar de desabafo, mas de proclamação da verdade de Deus. Púlpito não é palanque de político, nem muito menos lugar de discursos vazios e sem sentido. Púlpito é o altar do Senhor, lugar onde o pastor se coloca como porta-voz do Senhor. Púlpito é lugar de se fazer ouvir a voz profética de Deus. (STTOT, 2003, p. 114).
O líder evangélico não pode ser alguém levado por qualquer idéia facilmente. Sua mensagem deve estar fundamentada na Palavra de Deus; por isto, é imprescindível que ele sature a sua mente com as Escrituras sagradas e se dedique o máximo à oração. Ele deve ser uma pessoa reflexiva. Pastor tem que ser um pensador, um formador de opinião, um influenciador. E como tal, deve levar a igreja a dar respostas relevantes para a vida real das pessoas. A mensagem precisa despertar o interesse das pessoas. Ela deve ser bíblica, trazendo as respostas das questões pertinentes ao homem pós-moderno.
A fé precisa ser viva numa igreja. Parece banal, mas isto tem nexo. A igreja não basta ter o nome de cristã, isso apenas não muda a vida das pessoas. Ela deve expressar o caráter cristão nas suas relações e no seu ambiente. O pós-moderno necessita ver uma igreja séria, espiritual, coerente em sua fé. As pessoas estão cansadas de tanta hipocrisia. De pessoas que discursam bem, mas que não praticam nada do que falam (MACARTHUR, 1998, p. 287).
Se o mundo mudou e as pessoas mudaram, a liderança cristã precisa mudar a sua maneira de interagir com aqueles que são objeto do amor de Deus. Não que isso signifique que devemos mudar o evangelho ou barganhá-lo, definitivamente não. Mas o que devemos mudar é nossa estratégia, nossa liturgia, nossa linguagem, ou seja, o nosso modus operandi, pois a igreja não pode mais pensar com a cabeça do século XX.


5. CONCLUSÃO
Rubens Amorese em seu livro Icabode: da mente de Cristo à consciência moderna comenta que não há como negar que existe uma guerra para ver quem vai impor a sua realidade, o seu mundo sobre a civilização. É também verdade que essa guerra vai além do tempo e do espaço. Ela se estende às regiões celestiais.
Que o inimigo é incansável e faz de tudo para destruir a igreja não é novidade para ninguém. No entanto, a igreja de Jesus precisa cumprir a sua missão apesar de toda luta, de toda perseguição e de todas as investidas de Satanás. Ela não pode se encolher nesse momento tão decisivo.
Vimos que os desafios são imensos, mas não insuperáveis. São muitos, mas não impossíveis de serem vencidos. A noiva de Cristo pode ser perseguida, maltratada e ter alguns de seus membros até mortos, mas ela jamais será destruída. Jamais será aniquilada e jamais será extinta da face da terra como foi pretendida pelo inimigo. Desafios existem para ser superados e vencidos, essa deve ser a mentalidade do povo de Deus.
Um dos desafios da igreja hoje é penetrar na vida das pessoas. Porque o cidadão moderno não consegue e não deseja abrir mão de seu conforto privado. Não deseja abrir mão de sua forma de pensar e de agir; isso seria abrir mão de sua privacidade.
A conclusão desse trabalho consiste em afirmar que é possível ser uma igreja bíblica e relevante num mundo pós-moderno. No entanto, é necessário muito esforço e empenho. A Bíblia diz que o Reino de Deus é tomado a força, e hoje, a igreja precisa reafirmar constantemente sua fidelidade ao Senhor. Os valores do Reino de Deus devem ser enfatizados firmemente para que as ovelhas não caiam no engano do diabo.
O resultado desse estudo nos leva a um interesse ainda maior pelo tema. Estudar o homem no seu aspecto filosófico sempre constituiu ponto de interesse para qualquer acadêmico de teologia ou teólogo. O pastor não pode parar de pesquisar esse assunto; mesmo porque a civilização está em constantes transformações e mudanças. O pregador do evangelho deve ter uma mensagem relevante para as pessoas, trazendo do trono de Deus respostas para os maiores anseios do coração do homem.


6. REFERÊNCIAS
AMORESE, Rubens Martins. Icabode: da mente de Cristo à consciência moderna. Viçosa: Ultimato, 1998
Bíblia de Estudo Genebra. São Paulo: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995
FILHO, Tácito da Gama. Apologética: o cristianismo em questão. Goiânia: Editora Ceteo, 2004
LUTZER, Erwin E. Cristo entre outros deuses: Uma defesa da fé cristã numa era de tolerância. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Assembléia de Deus, 2007
MACARTHUR, Jr. John. Redescobrindo o ministério pastoral. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Assembléia de Deus, 1998
STTOT, John. Eu creio na pregação. São Paulo: Editora Vida, 2003
WARREN, Rick. Igreja com propósitos. São Paulo: Editora Vida, 1997
. Acesso em 1 de dezembro de 2009, citação de PEREIRA, Alberto
. Acesso em 10 de dezembro de 2009, citação de LOPES, Hernandes Dias
. Acesso em 4 de dezembro de 2009
. Acesso em 27 de novembro de 2009
. Acesso em 10 de dezembro 2009
. Acesso em: 12 de dezembro de 2009, citação de COELHO FILHO, Isaltino
. Acesso em: 9 de dezembro de 2009
. Acesso em 25 de no novembro de 2009

2 comentários:

  1. Publiquei minha monografia do tempo que convalidei meu bacharelado em teologia e pela graça de Deus muitos acadêmicos tem encontrado auxílio nela.

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  2. PARABENS QUE DEUS CONTINUE TE ABENÇOANDO

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